Entrevista com Michel Freidenson, ex-pianista do Tim Maia

O Long Play publicou, em sua quinta edição, uma entrevista com Michel Freidenson, que foi pianista do Tim Maia por dois anos na década de 90. Leia abaixo, na íntegra, tudo o que Michel revelou ao Long Play e, abaixo da entrevista, conheça o CD dele, que nos foi enviado como cortesia0.

Long Play – Como você conheceu o Tim Maia?

Michel Freidenson – Estava num churrasco em minha casa, o telefone tocou, era a produção do Tim me chamando urgente para um show no Olímpia. Cheguei lá em cima da hora e montei o teclado, entrei pelo público, no palco mesmo. Conhecia apenas o “Jorjão Barreto”, da Vitória Régia da época, tínhamos tocado juntos em dois teclados com Djavan por dois anos também. Olhei pra ele [o Tim Maia], ele me desejou boa sorte, não tinha partitura nenhuma e era a gravação do CD “Tim Mais Ao Vivo”.

LP – E durante o show?

MF – O Tim olhou várias vezes para mim e me cumprimentou. “Prazer Michel, prazer em te conhecer…”. Está no CD, principalmente na faixa “Paixão Antiga”. Este CD vendeu 1 milhão de cópias na época e levantou a Warner, foi tudo ideia do Tim, era pra ser independente.

LP – E ele gostou do seu som?

MF – Sim, no camarim ele me convidou para integrar a banda, disse pra ele que eu tinha estúdio, era fã dele, mas que ele brigava muito, então combinamos assim: se ele brigasse comigo no palco, eu sairia levando o teclado. Foram dois anos de muitas alegrias, nunca brigamos. Eu só olhava pra ele, ele se lembrava de nosso “acordo” (risos). Foi assim que tudo começou. Depois ele vinha a SP, me ligava às 5 da manhã e perguntava se eu estava dormindo (risos). Aí ele mostrava um lado maravilhoso, ele me dizia que viria tocar em SP mas que eu não iria tocar com ele “pra ficar com saudades” e mandava ingressos na primeira fila para mim, e cantava curtindo saber que estávamos lá, tem tanta história.

LP – Vocês viajavam muito juntos para os shows?

MF – Sim, fiz muitas viagens mas tive que recusar algumas por conta da minha agenda em SP. Teve uma para Dourados (MS), todos estavam sem a carteira da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), menos o Tim, que estava em dia com a Ordem. Tinham mais ou menos 5000 pessoas. Baixou uma fiscalização da OMB e o Tim falou: ”Poxa, sempre eu levo a culpa, mas desta vez vocês vão ter que se virar. Um dos músicos era militar no RJ, tinha feito exército e foi correndo até uma vila militar que tinha ao lado do show (por sorte!). Daí ele voltou com uma autoridade (acho que sargento) que era maestro da banda militar, para ajudar. Nisso o fiscal já estava negociando um “por fora”. O maestro veio e deu “ordem de prisão” para o fiscal, mandou a gente fazer o show, e depois liberou o cara. Só no Brasil (risos)

LP – Essa foi boa, o Tim tinha um jeito malandrão, né? Como era o comportamento dele com vocês?

MF – Era “tripolar” (risos). Um amor e de repente um vulcão. Mas muito carinhoso com quem ele realmente gostava. Não fazia média com ninguém, nunca conheci alguém tão autêntico. Mas era imprevisível.

LP – Na época você já tinha tocado com Djavan. Com quais outros músicos você tocou?

MF – Lo Borger, Fafá de Belém, Milton, Márcio Montarroyos, Jane Duboc, Leni de Andrade, Hermeto pascoal, Ivan Lins, Raul de Souza, Ana Caram, são tantos…

LP – Teve alguma coisa que você tinha aprendido ao ter tocado com outros cantores e que, ao chegar no Tim Maia, ele queria diferente?

MF – Com Tim não podia ter enrolação. Era intenso e comprometido sempre, se vacilasse, desfocasse, se fechar o olho demais e curtisse ele sacava na hora. Ele captava a “vibe” de cada um. Tinha que estar 100%. Acho que nisso as “drugs” ampliavam em muito a sensibilidades dele. Apesar de diferente, uma linda escola. Extremamente profissa. Ele acabava os shows e chamava todos, principalmente os bateras para analisarem a atuação. Se tinham perdido o groove em algum momento. E fora isso, ele sempre estava ouvindo muito tudo o que acontecia no Brasil e no mundo, não era sossegado, era interessado.

LP – E ele mexia com as meninas no show também, não é?

MF – Ele era fogo. Sim, e de acabar com elas e/ou eles também. Começava elogiando depois escrachava, inclusive com as cantoras. Ele, às vezes de mau humor, começava o show reclamando do vestido das meninas. Elas começavam a chorar no início (risos). Muito punk. Depois no camarim, aliviava. Mas todo mundo depois de um tempo entendia que era “efeito”.

LP – As drogas chegaram a afetar a voz dele?

MF – Eu acho que a voz não, mas o fôlego sim. Ele começou a parar de cantar a música toda, lembra? E isso foi piorando: “Cantem comigo princesas, eu preciso de vocês”.

LP – As drogas tem a ver também com a fama de displicente, atrasado e de faltar shows que ele tinha?

MF – Isso tem um lado injusto. Ele realmente deixou de ir a alguns shows por conta disso, não foram muitos. Daí, empresários oportunistas começaram a vender shows do Tim pelo Brasil, em clubes, etc. Se diziam representantes dele, pegavam o sinal de 50% do cachê e o Tim realmente não aparecia, porque nem ele sabia que tinham estes shows! Muita gente se aproveitou disso.

LP –  A biografia de Nelson Motta foi fiel à vida do Tim?

MF – Olha, vale a pena ler. O Nelson Motta não foi fundo, mas ficou legal. Você não consegue parar de ler, a vida dele foi uma “coisa”. Era uma aventura seguida de outra, totalmente punk, um mundo à parte neste mundo. É delicioso ler.

LP – E como você analisa ele musicalmente, o que você acha que ele representa para a música brasileira?

MF – Ele foi cativante para todos os tipos de público, sem fazer personagem, sendo somente ele de verdade, contagiando e emocionando pela autenticidade e astral sincero. Não era bonito, muito pelo contrário, desdenhava da mídia, e sempre teve casa cheia. Não tinha medo de brigar, era auto confiante, um exemplo de guerreiro e leal aos amigos. Isso na parte boa, no restante, seu comportamento pessoal, etc. acho que ele sabia muito bem como essa história terminaria. Pode ser que nem se lembrasse das coisas, foi tudo “um sonho”.

NOTAS NO AR

Michel Freidenson enviou seu excelente CD “Notas no Ar” para o Dia do Vinil. A obra é uma mistura  de músicas já consagradas na mente dos brasileiros com composições extremamente trabalhadas do pianista. Ótimo para um som ambiente relaxante e calmo e para quem gosta de ouvir notas quase soltas, voando no ar, organizadas em ritmos e frequências harmônicas. Segundo o próprio: ““Neste CD, homenageio grandes compositores e apresento composições de minha autoria. Procuro, através da espontaneidade e liberdade que a música proporciona, emocionar e unir as pessoas, celebrar a vida através da música”.

Para mais informações a respeito do pianista, visite seu site oficial: www.michelfreidenson.com

Veja as fotos:

Capa

CD

Encarte

1 comentário

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Uma resposta para “Entrevista com Michel Freidenson, ex-pianista do Tim Maia

  1. Herbert,
    Parabéns por todas as suas iniciativas e merecido sucesso delas.
    Gostei muito desta entrevista e da história contida nela, pois de informações como estas, peculiares, nós apreciadores também do Long Play precisamos ler.
    Muito obrigado.
    Att, Paulo.

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