Quando pais e filhos passaram a gostar de Legião Urbana

O disco “As Quatro Estações” (1989) foi o álbum que fez a Legião virar uma lenda. Todas as músicas do disco, sem exagero, estão na boca do povo hoje. Muitos críticos consideram o álbum como o disco decisivo da carreira dos músicos.

QUATRO ESTAÇÕES

Mesmo assim, Renato Russo, afirmou que o sucesso começou a fugir do controle da banda pouco antes do lançamento de “Que País É Este”, terceiro disco da Legião, que antecedeu “As Quatro Estações”. Já fazendo shows para mais de 50 mil pessoas e lotando ginásios no país, a Legião solidificou uma nova postura com o quarto disco: uma banda de atitude, uma banda que, como seu próprio líder definiu, “virou mega”.

As letras das músicas versam sobre o mesmo tema do terceiro álbum, porém, com linguagem diferente, espiritual e serena. A mudança na forma de a banda passar suas ideias acompanhou as mudanças na política nacional. Era necessário falar com mais calma no pós-ditadura. Agora era a hora de resgatar os sentimentos perdidos.

Assim como John Keats, poeta inglês, Renato Russo compara as quatro estações naturais com fictícias estações humanas, demonstrando a variação dos sentimentos do ser humano conforme o ambiente muda, embora ele seja sempre o mesmo. “A Legião Urbana é assim também: não mudamos nosso discurso, mas somos como um dia, que de manhã é de uma forma, a tarde de outra, à noite outra, mas é ainda o mesmo dia”, disse Renato.

QUATRO ESTAÇÕES2

Nessa linha de raciocínio, é fácil observar que as letras foram escritas em primeira pessoa e ao mesmo tempo falam sobre sentimentos universais. Este modelo de composição era proposital e objetivou não “fechar” o tema das canções e permitir diversas interpretações e a identificação do maior número de pessoas com a música.

Há um certo “tom positivo” no fechamento do disco, dando a ideia de esperança. Esta aura acompanharia o grupo até o final de sua carreira, deixando no Brasil a indelével marca e representação de sentimentos fortíssimos através de músicas como “Pais e Filhos”, “Monte Castelo”, “Meninos e Meninas”, “Há Tempos” e “Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto”.

O próprio Renato Russo falou bastante do disco em uma extensa entrevista sua à MTV:

“Quatro Estações foi quando até as pessoas que não queriam ver não puderam negar nosso sucesso. No “Quatro Estações” estavam preparados pra falar mal e não puderam. Decidimos fazer algo mais organizado, tanto no disco como nos shows. Palco mais alto, porque dava confusão ficar perto do público. Foi um disco que teve muita expectativa antes do lançamento. Demoramos um ano pra gravar. Foi a primeira vez que demorarmos pra lançar algo. Tava todo mundo esperando. As outras bandas continuaram trabalhando nesse tempo. As pessoas cobravam: “Você não gosta de fazer dinheiro?”. E eu digo: dinheiro é a motivação principal e por isso o trabalho é a coisa mais importante. Se eu tenho uma parede de ouro no quarto não vou tirar lasquinha de noite, vamos esperar e fazer uma coisa bem feita.

Pai e filho: Giuliano Manfredini posa em frente a cartaz do disco lendário de Renato

Pai e filho: Giuliano Manfredini posa em frente a cartaz do disco lendário de Renato

Rock é marketing. Não é só pegar uma guitarra e ser explorado, é importante saber onde se está pisando. De repente chegamos com outra postura [com o Quatro Estações]. As letras falam da mesma coisa, nossa postura é que mudou. Você não pode chegar com um repertório muito pesado pra 50 mil pessoas. Mesmo assim, Legião era a coisa mais pesada do país na época, junto com Camisa de Vênus. Era novidade completa e tocar “Que País É Este” ou “Conexão Amazônia”, ainda era coisa punk.

Até “Quatro Estações” eu quebrava coisas no palco, mas depois eu descobri que deveríamos ir com calma, é necessário ter responsabilidade, não posso parar o show se um boboca me tacou uma lata de cerveja. Eu tava cansado de cantar nossas músicas e as pessoas ficaram tacando coisa, mesmo que isso significasse que estavam gostando da gente. Aí falavam “Ah, o Renato Russo é histérico”. Mas jogavam garrafa, coco, lata e um monte de coisa. Estávamos tocando melhor e a gente queria que as pessoas percebessem que não é só pauleira. Rock é música, não é só barulho. Houve essa mudança. “Monte Castelo” chama a atenção.

Renato falava de formas diferentes sobre as mesmas coisas atingindo o grande público

Renato falava de formas diferentes sobre as mesmas coisas atingindo o grande público

Com o “Quatro Estações” a gente virou uma grande banda pop. Foi um momento pop. Saímos na Veja. Das 11 músicas tivemos 9 hit singles. E não são músicas comerciais. Até me chamaram de “Olavo Bilac do Rock”. Mas quando tocou no rádio todo mundo gostou, virou pop.

O Quatro Estações todo mundo gostou e achou bonitinho, mas agora eu lembro as pessoas: “Pais e Filhos” é uma música sobre suicídio, mas as pessoas não percebem e cantam num clima alegre e tudo. Não gosto de explicar as músicas, porque cada pessoa sente ela de uma forma. Acho “Quatro Estações” um disco bem pesado. Eu acho muito pesado.”

No Dia do Vinil, você pode ouvir este fabuloso disco na Discoteca Popular, da forma como foi gravado originalmente, no LP.

É dia 02 de março, às 19h, no Restaurante Sabores. Vai perder?

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